2004/12/30

Roubei-te a vida que me deixaste
agarrando a herança que nunca quis.
Tornei-me homem antes de ser criança
e fiz-me combatente de sangue contra mim mesmo.

- Ganhei uma guerra que não quis combater

Deixaste-me só num lugar perdido
e sôfrego da minha mente
onde, cego, continuo teimosamente a lutar
contra inimigos, reais e imaginários.

- O espelho bicôncavo é-me demasiado doloroso

A tua lembrança enfraquece-me
e aumenta a masmorra que desenhaste.
Neguei a verdade que vi no escuro dos teus olhos
tristes e sós de lágrimas de vidro fugaz.

Repudiei a dor corrosiva que te banhava
e alimentando-te, permiti a tua desistência.
Furtei-te o rasgo de vida que usavas com impaciência
embarcando, para sempre, num galeão de fantasmas sem porto.