Empenham-nos em ser infelizes
ou salvam-nos os pequenos detalhes?
Vemos apenas o que está longe
ou é a vida que vista de fora
parece um hábito, um mau guarda-
-roupa, embora intimamente nos
satisfaça e remeta para a infância?
O tempo mata-nos e mata os nossos
amores. A memória trai-nos, mente
e salva-nos do que realmente somos.
Deixa-nos entregues à ignorância,
ao sonho, à miséria do que sentimos.
O hábito embrutece-nos, tristes
e sós em blocos de apartamentos.
Copérnico, claro, já nos tinha mostrado
que não somos centro nenhum, Darwin que
não passamos de primatas palradores
e Freu destruiu a razão com o inconsciente.
Tanta ciância e, oh, tudo como dantes.
Quem pensa, descobre, inventa, diverte-se.
Só não percebo porque chamam universal
à emoção se não se podem traduzir os acentos
de uma língua para outra. Ou a tanta
gente que passa a correr por um homem.
Um homem, uma manta, duas crianças.
Uma dorme, a outra aprende com a pistola
a brincar aos telejornais. Tudo a preto e
branco. Mesmo as vírgulas com patrocínio.
By Carlos Bessa, «Em partes iguais»