2005/03/03

Cansaço

O espelho nada me diz. Ou antes - não me reconheço nele.
Apenas aquele brilho no fundo do olhar me parece familiar.
- Bombardeias-me com perguntas. Não! Pára! Não me questiones mais...Como queres tu que te responda?!
Maquilho-me rapidamente e tento não ser confrontada de novo por esse olhar perspicaz e acusador. Sim, tento. Penteio-me, viro as costas e nem quero ver o resultado final.
- Sim, eu sei...até tens razão...mas que queres que diga?!
Continuo ainda a sentir-te. Sinto-te de longe ainda. De longe e temo rever-te, mas consola-me saber que me olhas. Sim, até a tua vital e perturbante insistência me consola.
Mais um dia.
A vida acelera.
Ou a acelero eu.
Pena tenho que o meu corpo não me permita andar mais depressa.Cansaço?
Acelero o passo de novo, penso na resposta e só me recordo das palavras de Álvaro de Campos:
«...
Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
...»