2005/05/04

Amor em Prosa I

Quantas vezes, no nosso desespero, a tua mão atravessou a minha mortalha de nuvens e trovões para me trazer de volta da escuridão a que tanto gosto de descer? Quantas vezes nós nos abraçámos, embalados nos dias negros por lágrimas de luz e suspiros perfumados pelo sofrimento? Quantas vezes me arrancaste a pele, furiosa com o meu carinho, o teu olhar assassino cravado no meu peito? Quantas promessas te fiz e não cumpri, quantas mentiras te contei, quantas desculpas inventei, quantos erros desculpaste? Quantas vezes fui o rochedo, fui o ferro, fui a montanha que aguentou as tuas fúrias sem motivo, e fui o teu escudo quando não tinhas razão? Quantas vezes nasceu o sol sobre o nosso amor, as tiras de luz baça da tua persiana a chamar-nos de volta ao mundo? Alguma vez foste tão bela quanto nessas manhãs?Alguma vez existiu beleza no universo antes desse primeiro acordar? Nem sei quantas vidas daria para te ter de volta, nem sei se existem vidas que cheguem no mundo para encher tal vazio. Só sei que acordo e não estás lá. Só sei isso. E acho que não tens forma mais eficaz de me magoar, e de te magoar. Nem sei que olhos arrancar senão os meus. Quem me dera poder arrancar os teus olhos, a tua alma da minha, mas não consigo. Se te arranco, que me resta? Nada mais existe para além de ti.
Tenho ou não tenho amigos cheios de talento?!