2006/02/26

«...Se calhar morri. Amanhã tomo um avião para o triângulo do costume, paleio-autógrafos-entrevistas, devidamente escoltado pelo orgulhoso editor, quartos de hotel, almoços e jantares com pessoas que esperam de mim ideias inteligentes e confissões que iluminam, o inevitável fotógrafo a exigir que me encoste à parede assim, exemplifica ele mesmo, de braços cruzados, numa atitude idiota que considera ao mesmo tempo casual e irónica, respondo que nunca me encosto à parede assim (...)apresentam-me uma romancista pior que velha, a envelhecer, com uma écharpe mirabolante e mais anéis que dedos, que segura no garfo e na faca em delicadezas de relojoeiro a acertar as horas ao frango, a propósito de horas tento perceber-lhas no pulso mas os ponteiros minúsculos, aproveita o olhar, pensando que lhe estudo o decote, para me pedir um conto na vida enquanto ela vai deixando pegadas de batôn no guardanapo
(antes no guardanapo que no meu colarinho)
(...)
(entreparênteses o decote dela não têm interesse nenhum)
Lança-se num discurso extasiado acerca das minhas qualidades verdadeiramente únicas à medida que o decote, para azar meu, se alarga mostrando sardas tristes, não é se calhar morri, morri de certeza...»

* Apeteceu-me partilhar bocados desta minha leitura de Domingo. Excertos da crónica de António Lobo Antunes, da 'Visão' n.º 677 (23 Fevereiro 2006)