2006/04/04

Estátua de Sal

Debaixo desta torrente de líquido quente que me escorre pelo cabelo para a cara, para as costas, para o resto do corpo, tento apagar o cheiro de ti, substituir o calor de ti pelo calor da água que o chuveiro vomita violentamente.
Viro a cara para cima, talvez olhando este mar fervente consiga apagar os teus olhos dos meus, mesmo assim, talvez mesmo com eles fechados, te consiga apagar, a água entra-me morna pelos lábios, recorda-me a tua língua, também a água dança na minha boca...Entras neste mundo de vapor como uma avalanche morena, o teu cabelo apanhado no topo da cabeça, pareces uma medusa pronta a consumir o mundo, a transformá-lo em pedra, a mim transformas-me numa estátua de sal, sal que se tenta desfazer debaixo desta cascata antes que me desfaças tu com os teus lábios.
Agarras-me pelas costas, as formas do teu corpo frio coladas a mim como uma sereia a uma rocha fria da praia, cruzas as mãos no meu peito e cantas baixinho, encostas a cara ao meu coração, ouves o que sinto através das minhas costas, escondida da água e do mundo pelos meus ombros, a canção que me teces pergunta-me se há espaço para ti.
Meu amor, para mim não existem espaços sem ti.


Vitor
www.escritorinsano.blogspot.com