
"A senhora marquesa resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida eclesiástica. A sua figura amarelada e magrita pedia aquele destino recolhido: era já afeiçoado às coisas de capela, e o seu encanto era estar aninhado ao pé das mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo falar de santas.
(...) achavam-no bonito, aninhavam-no no meio delas, beijocavam-no, faziam-lhe cócegas, e ele rolava por entre as saias, em contacto com os corpos, com gritinhos de contentamento. Às vezes, quando a senhora marquesa saía, vestiam-no de mulher, entre grandes risadas; ele abandonava-se, meio nu, com os seus olhos lânguidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces.»
in Cap. III, O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós

Mae (1997), de Paula Rego
www.mml.cam.ac.uk/ spanish/resources/Rego/