2006/08/16


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- Não critica os livros que lês?
- Eu? Eu não leio livros!-diz Irnerio.
- Então o que lês?
-Nada. Habituei-me tão bem a não ler que nem leio sequer o que me aparece diante dos olhos por acaso. Não é fácil: ensinam-nos a ler desde miúdos e durante toda a vida fica-se escravo de toda a escrita que nos põem à frente. Se calhar também tive de fazer um esforço, nos primeiros tempos, para aprender a não ler, mas agora é já uma coisa natural. O segredo é não se recusar a olhar as palavras escritas, pelo contrário, tem de se olhá-las intensamente até desaparecerem.
Os olhos de Irnerio têm uma grande pupila clara e irrequieta; parecem olhos a que nada escapa, como os de um nativo de uma floresta entregue à caça e à recolecção.
(...)
Tentas imaginar como pode parecer o mundo, este mundo denso de escrita que nos cerca por todos os lados, a alguém que aprendeu a não ler. E ao mesmo tempo perguntas-te que relação poderá haver enre a Leitora e o Não Leitor e de repente achas que é precisamente a distância entre eles que os mantém unidos...»

in 'Se Numa Noite de Inverno Um Viajante',
de Italo Calvino