2005/06/14

Dilemas


Naquela altura era diferente, cada vez que havia necessidade de tomar uma decisão o meu cérebro enlouquecia. As preocupações tomavam conta de mim, o medo. Hoje já não é assim. Se julgam que simplesmente me tornei mais inteligente, mais sábio, ou, mais adequado ainda, mais observador talvez se enganem. Na realidade nem eu sei realmente a razão da mudança de atitude mas, temo que apenas seja puro e total desinteresse pelo futuro possível, pelo destino a que, a escolha de um ou outro caminho, possa conduzir.Numa palavra, comodismo! Que seja o que tiver que ser e quando o for assim terá sido e já nada há a fazer nem a lamentar pois a não interferência na escolha livra-nos da culpa. No fundo é um pensamento feio, e que mal me sinto com ele mas ao mesmo tempo sem vontade de mudar, sem a coragem necessária para tentar de alguma forma ser, mesmo que só parcialmente, o condutor que guia o destino da minha vida, deixando que assim, qual barco sem leme, este navegue ao sabor da maré, rumando ora para bom, ora para mau porto.É em dias assim, sem rumo e sem porto onde parar, que atraco o meu barco em cais incerto e o encho de cerveja, essa mesmo a do esquecimento. Um travo amargo de uma indesejada bebida que não confere qualquer sabor a uma vida miserável que navega sem destino num caminho bem definido e inspira o intelecto pela lembrança do seu consumo. Liquido que se flui como sangue nas veias com um propósito desconhecido e com sentido de vida que se concretiza de uma forma que me é abstracta.Os olhos, falsários que julgamos mostrarem-nos a realidade, fecham-se a cada trago de esquecimento levando o meu barco àquele mar azul a perder de vista onde a calma e a serenidade existem enquanto as crio.Fecho então os olhos para sonhar e vejo um mundo à minha frente, um Universo que em nada perde para aquele em que vivemos na realidade. Já por duas vezes esta palavra, realidade, que significa ela realmente. Parece tão concreta, tão absoluta, mas o concreto e o absoluto são per si tão relativos.Um mar azul a perder de vista, esta é a primeira coisa que vejo quando fecho os olhos.Se pudesse nele mergulhar!Oiço o som das suas ondas, suaves, gentis, um mar constante e eterno nesse instante imaginado num qualquer piscar de olhos. Um cheiro a maresia traz-me o gosto a sal das águas desse mar. A brisa que se faz sentir traz-me o odor e o frio que dele emana e assim sinto as suas águas tocarem-me. Esse mar, tão belo, tão ameno e dormente que existe nesse piscar de olhos.Se pudesse nele mergulhar!Mas sinto-o, fecho os olhos e sinto-o, vejo-o, de olhos fechados vejo esse mar azul que se estende no Universo da minha imaginação, para mim é real nesse breve instante, nesse breve piscar de olhos em que digo adeus aos sentidos físicos e olá aos sentidos da imaginação.Se pudesse nele mergulhar?Claro que posso, ele existe, sinto-o e vejo-o, para mergulhar nele só preciso estar lá, lá onde ele existe, dentro do meu pensamento, dentro da minha mente, lá onde existe esse mar, onde existe esse Universo de Utopia.

By Pedro Nunes, «DNJOVEM» 2001